terça-feira, 31 de março de 2026

Sobre amar os covardes.





É difícil amar os covardes. 

E não é que não tenham seu apelo. Suas famílias funcionais, suas declarações contundentes, suas carreiras estáveis com salário fixo e fundos de garantia. Sorriem com um olhar de alguém que te oferece lugar sob a sombrinha na garoa fina, daquelas que dão frio na espinha bem próprias da vida. E eu também, pelo que podia ver da vida, entendi que era isso o tudo e o bom e o bem. Mas daí eu amei com tanta intensidade que me foi exigido bem mais do que isso. E não pelo sujeito do meu amor, que estava bem com o bom e o tudo que já se via, mas pela densidade do meu compromisso e a consistência do meu amor, eu fui além. 

Em minha resignação surrealista, fiz das tripas coração. 

Porque quando o amor me privou do mínimo, eu busquei o mínimo múltiplo comum, e segui somando e dividindo sem encontrar resultado satisfatório algum. Eu persisti na equação. Quando o amor me rasgou, eu fiz origamis com o que se destacava de cada página da estória que intencionava. Exponho-os orgulhosamente numa sala de minha cabeça cujo batente anuncia: "aqui jaz memória, saudade e celebração". Quando o amor me quebrou, eu fiz mosaicos incríveis. Ornei as paredes internas contando uma história épica sobre o meu amor, a minha coragem, além da minha resignação. 

Eu mudei as metas, eu alterei os métodos e me submeti a acordos que não eram acordos, eram comunicados que eu recebia com criatividade, tudo para torná-los palatáveis. E o que tudo isso foi fazendo de mim é que me tornei um mutante. Quando já não havia sombrinha, eu soube dançar na chuva e ofereci a mim mesmo, ainda que em retrospecto, um espetáculo do qual eu só me orgulho. 

O esforço de amar os covardes me fez o mais corajoso dos homens. O amor pelos covardes e o esforço de nunca deixá-los me tornou o maior impedimento para estar com eles. 
Entendi que é isso que a vida quer. Entendi que é isso que eu também procuro. Uma companhia na coragem. E aí, na persistência do amor pelos meninos covardes que encontro pelo caminho, padeço de vê-los, crianças assustadas, tão agoniados com o brinquedo quebrado nas mãos. Eles acham que se correrem muito escapam do inescapável. Eles acham que se controlarem tudo terão algum arbítrio sobre os grandes e os pequenos perigos. Esterilizam os dias, fervem os sentimentos, os pensamentos, as atitudes, protegendo-se da macrobiótica dinâmica dos que são considerados vivos. 

Eu sou fiel às minhas lições. Sei que a consistência de uma companhia está no acompanhar. Em segurar a mão e não soltar mesmo quando a luz do que se conhece se apaga e ninguém sabe no que vai dar. Sei que a coragem se desdobra em disposição. A dura verdade é que esses meninos afobados e apavorados, frente ao desconhecido dos dias, ao irremediável fluxo cambiante dos que vivem com coragem como eu, serão companhia que não acompanha. Vão soltar minha mão uma e outra vez. Vão sempre arregar e me deixar sozinho. É difícil amar os covardes - ainda que faça todo sentido deixá-los para trás. 

Phelipe Ribeiro Veiga
Rio, 31 de março de 2026

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito ― por coragem. Será?" (Guimarães Rosa) 

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