terça-feira, 31 de março de 2026

Sobre amar os covardes.





É difícil amar os covardes. 

E não é que não tenham seu apelo. Suas famílias funcionais, suas declarações contundentes, suas carreiras estáveis com salário fixo e fundos de garantia. Sorriem com um olhar de alguém que te oferece lugar sob a sombrinha na garoa fina, daquelas que dão frio na espinha bem próprias da vida. E eu também, pelo que podia ver da vida, entendi que era isso o tudo e o bom e o bem. Mas daí eu amei com tanta intensidade que me foi exigido bem mais do que isso. E não pelo sujeito do meu amor, que estava bem com o bom e o tudo que já se via, mas pela densidade do meu compromisso e a consistência do meu amor, eu fui além. 

Em minha resignação surrealista, fiz das tripas coração. 

Porque quando o amor me privou do mínimo, eu busquei o mínimo múltiplo comum, e segui somando e dividindo sem encontrar resultado satisfatório algum. Eu persisti na equação. Quando o amor me rasgou, eu fiz origamis com o que se destacava de cada página da estória que intencionava. Exponho-os orgulhosamente numa sala de minha cabeça cujo batente anuncia: "aqui jaz memória, saudade e celebração". Quando o amor me quebrou, eu fiz mosaicos incríveis. Ornei as paredes internas contando uma história épica sobre o meu amor, a minha coragem, além da minha resignação. 

Eu mudei as metas, eu alterei os métodos e me submeti a acordos que não eram acordos, eram comunicados que eu recebia com criatividade, tudo para torná-los palatáveis. E o que tudo isso foi fazendo de mim é que me tornei um mutante. Quando já não havia sombrinha, eu soube dançar na chuva e ofereci a mim mesmo, ainda que em retrospecto, um espetáculo do qual eu só me orgulho. 

O esforço de amar os covardes me fez o mais corajoso dos homens. O amor pelos covardes e o esforço de nunca deixá-los me tornou o maior impedimento para estar com eles. 
Entendi que é isso que a vida quer. Entendi que é isso que eu também procuro. Uma companhia na coragem. E aí, na persistência do amor pelos meninos covardes que encontro pelo caminho, padeço de vê-los, crianças assustadas, tão agoniados com o brinquedo quebrado nas mãos. Eles acham que se correrem muito escapam do inescapável. Eles acham que se controlarem tudo terão algum arbítrio sobre os grandes e os pequenos perigos. Esterilizam os dias, fervem os sentimentos, os pensamentos, as atitudes, protegendo-se da macrobiótica dinâmica dos que são considerados vivos. 

Eu sou fiel às minhas lições. Sei que a consistência de uma companhia está no acompanhar. Em segurar a mão e não soltar mesmo quando a luz do que se conhece se apaga e ninguém sabe no que vai dar. Sei que a coragem se desdobra em disposição. A dura verdade é que esses meninos afobados e apavorados, frente ao desconhecido dos dias, ao irremediável fluxo cambiante dos que vivem com coragem como eu, serão companhia que não acompanha. Vão soltar minha mão uma e outra vez. Vão sempre arregar e me deixar sozinho. É difícil amar os covardes - ainda que faça todo sentido deixá-los para trás. 

Phelipe Ribeiro Veiga
Rio, 31 de março de 2026

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito ― por coragem. Será?" (Guimarães Rosa) 

quarta-feira, 25 de março de 2026

Sobre como as coisas são.




É que é assim mesmo.

A gente aposta, perde um pouco, ganha um pouco, e, no fim, conta as fichas e vê o que dá pra fazer com o valor que sobra. E tantas vezes não custeia uma ida até a próxima esquina. Mas tudo é pra sempre mesmo o que foi.

É que é assim mesmo.

A gente sente uma vontade de se refrescar nas águas sem pensar no clima, na direção do vento, no caminhar das nuvens. E aí, quando sai, tem que se haver com o bater dos dentes, com não ter trazido toalha, com não poder pedir carona por estar inadequado para se sentar no banco de passageiro de ninguém. Restando apenas suportar o frio da própria inconsequência e imediatismo, resultado de se deixar seduzir pela tola ideia de se molhar. 

É que é assim mesmo.

A gente escuta a promessa, acredita, se estrepa e fica vendo o cômico e o irremediável diante da realização do que tantas vezes é tragédia anunciada. É quase um rir de si mesmo. Do papel de panaca que tantas vezes nos prestamos ao dar a volta no quarteirão e pisar na mesma bosta de cachorro que ainda conserva a marca do nosso sapato desde a última vez.

E aí, já que é assim mesmo, toca seguir. 

Arrastando o que dá pra arrastar, inclusive a si mesmo. Toca colar o que dá com o cuspe da própria língua, ou às vezes da língua dos outros. Toca ir mancando. Toca vestir a roupa rota. Calçar o sapato, mesmo que descolando a sola com a pedra dentro. É o sapato que resta, ao pé que resta, ao passo que resta no caminho do que te é possível. 

Toca seguir com o que não dá mesmo. Toca seguir. Porque amanhã é quinta-feira, tem aula, tem trabalho, e tem que cozinhar arroz, e, além disso, vence a fatura do gás.


Rio de Janeiro, 25 de março de 2026.
Phelipe Ribeiro Veiga.

“deita no meu peito e me devora.
Na vida só resta seguir” 

sábado, 21 de março de 2026

Sem título.



Eu não faço a menor ideia do que fazer. Há uma perturbação intensa na minha alma. Uma insatisfação perene com tudo e todos. Uma vontade de apertar Eject de todos os âmbitos da minha vida. Eu não sei contornar o cansaço. A nostalgia. A frustração das promessas não cumpridas. Eu não sei navegar a confusão dos meus pensamentos. Eu não sei me livrar da embargada vontade de chorar cada vez que me toca uma tristeza silenciosa que roda em segundo plano na minha cabeça. Essa vontade de estar só e essa dor por sentir tanta solidão. Esse refazer caminhos sem esteio, de ser essa correnteza sem margem. Esse choro sem olhos dos quais escorrer-se. E essa sensação de inadequação? De que me quebraram em definitivo. De que estou defeituoso, outra vez. Esse desejo de se livrar, de se desembaraçar, de se descompatibilizar com tudo. De dar a todas as gentes a paz da minha ausência e de ter eu também a paz da ausência de mim, sabe-se lá de que maneira. De me ver feito uma rolha que boia num lago sem ondas. Imóvel e inamovível. Ancorada na imobilidade tão próprias das coisas inanimadas. E assim vou, num quarto que não é meu, numa cidade que não é a minha, invejando cadeiras, talheres, pés de mesas. Invejando o não ser das coisas que são apenas sem se saberem sendo. Enquanto resto, enquanto me percebo, enquanto me sei sei lá o quê, vou ficando aqui. Invejando e buscando a porta de saída. 


São Paulo, 21 de março de 2026. 

Phelipe R Veiga

domingo, 16 de novembro de 2025

Sobre as meninas de bicicletas.




Hoje passaram por mim duas meninas em bicicletas sem rodinhas.

Me transporto instantaneamente àquele dia em que, pela primeira vez, eu, com minhas pernas compridas de criança-grilo, consegui fazer mover a bicicleta emprestada, tomada numa tarde enquanto matava aula. Eu tomei a bicicleta naquele dia com a determinação de que conseguiria. Sozinho, ali na rua sem saída em que morava, enquanto todas as outras crianças da rua estavam na escola, enquanto todos os adultos estavam tranquilos no trabalho me imaginando seguro na sala de aula, eu alcancei o meu objetivo.

Lembro do instante. Da sensação momentânea de que agora as distâncias mudavam de medida. De que eu poderia cruzar o bairro, ir de uma ponta à outra dos trilhos de trem que cruzavam o distrito numa outra dimensão de velocidades. Pouco me importava que eu não sabia descer da bicicleta, que dependia dos escassos meio-fios. O que importava é que eu conseguia montar nela e me mover.

Lembro do frio na barriga. Lembro do medo, meu sentimento de estimação. Eu, criança amedrontada, com medo de cair, com medo de não passar de ano, com medo de que meus pais um dia nunca mais voltassem, com medo de nunca ser amado. Cada pedal funcionava como uma coreografia composta pelo pé direito do medo e pelo pé esquerdo da coragem. E, nesse intermitente revezamento, sigo a vida até o dia de hoje, movendo-a, tendo para cada passo direito um medo, para cada passo esquerdo uma coragem — e assim sucessivamente. Caminho, avanço, sabendo que as distâncias da vida não diminuem. Só se fazem maiores, não importando se monto bicicletas, motos, carros, aviões ou foguetes interestelares. Medo e coragem.

Sigo pedalando atrás de recuperar aquela fantasia do instante em que pensei que poderia ir aonde queria, cruzar a distância que fosse. Desejo que desfrutem bem dela, meninas. Desfrutem bem dela!

Phelipe Ribeiro Veiga
Rio, 16 de novembro de 2025 - 13h58




terça-feira, 14 de outubro de 2025

Sem título.



O amor é assim.

Primeiro me aprecia, depois me apressa.

Primeiro me abraça, depois me aperta.

O amor é assim.

Perde a hora e culpa a mim.


E eu, que tão frequentemente me perco no labirinto que levo dentro, me vejo de novo crente.

Dessa vez, de 277 mandamentos, servindo 43 deuses e destinado a uma dezena de infernos.

É assim que a promessa de salvação vira expectativa de danação.


Eu não sei resolver isso.

E aí vou me convencendo de que a solução não está errada; está errado o problema.

Que vivo me perguntando qual será meu lugar correto, quando eu devo ser o lugar errado de tanta gente.

Se nem eu mesmo encontro morada dentro do que sou, como posso almejar abrigar qualquer um?


No fim, me vejo assim, outra vez acomodando o mundo num peito que mal me cabe.

E assim vai crescendo essa sensação de ocaso,

de que me quebraram de um jeito definitivo,

de que não sei jogar esse jogo,

essa sensação de que ou me quebraram ou eu já nasci quebrado.


Há dias em que é mais difícil ser.


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Sobre o amor como um sonar.



Meu coração submarino abissal
Bioluminescente. 
Meu amor sonar pulsa
A buscar saber se você ainda está ao meu alcance
Meu amor sonar
Você consegue escutar? 

Phelipe Ribeiro Veiga
Rio de Janeiro, 19 de agosto de 2025

“Os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos” (CV)
“Não seriam de amor se não fossem ridículas” (FP) 

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Aniversário.

Hoje eu passei em frente àquele café e vi aquela mesma mesa ocupada por dois homens. Um diante do outro. Conversa grave tivemos ali. Pensava se eles tinham noção do quanto eu já me rasguei em pedaços naquela mesma posição. Mas não. Nem me viram, nem noção, nem nada. Tampouco aquela cadeira se deu conta, ou os guardanapos da época — testemunhas não oculares da minha espoliação moral —, que certamente já se consumiram. A mesa, em si, pode ser, inclusive, que seja outra e esteja num canto outro do salão. Mas eu penso na gente ali, numa manhã ensolarada, comigo dizendo: "Fica! Vamos tentar!", enquanto suturava as gretas do peito, silenciosamente, diante de condições tão injustas com meu amor tão bonito.


Ver isso me fez pensar naquele aeroporto, naquela zona de embarque que, da última vez que passei por ela, havia sido alterada de modo que, fosse hoje, não poderíamos haver sustentado por tanto tempo o olhar. Eu me lembro de mim mesmo quase que em terceira pessoa, me arrastando pro raio-x com minhas malas excessivas e meu coração sempre pesando mais de 23 kg, estirado feito um chiclete já sem doce e pingando por todo o caminho que ficava entre eu e você — mais de cinquenta metros de distância. Eu gritava a dor que era uma despedida, coisa sempre inadmissível pra mim. Ficou aquela zona de embarque distante. Aqueles funcionários talvez nem sejam mais os mesmos. Eu, dizendo, ensandecido: "Salta essa catraca, vem comigo, seja lá pra onde for", diante de uma fé cega e umas duas ingenuidades tão condicionantes.


Lembrar dessa despedida me remeteu àquele condomínio popular que ergueram sobre o pátio onde eu, de mãos dadas e indo na contramão de pra onde apontava o meu pequeno coração — recém-saído da caixa naquela época —, torcia dolorosamente o pescoço pra olhar pra cima e te ver acenando da janela, separada de mim por imperativos categóricos em forma de barras de ferro. Eu, que me levantava triste sem nem saber reconhecer a tristeza, ia de encontro a um encontro com hora pra acabar, sabendo que me esperava, após o encontro, a despedida excruciante. Escrevia, naquela época, eu sei, cartas que fazem bem mais sentido hoje do que quando as escrevi. Me pergunto se ali eu já escrevia pra mim. Se deixava trilhas de pão pro homem que sou refazer o caminho e voltar naquele pátio a recuperar meu pedaço menino deixado ali, olhando pra trás — sequestrado por um abandono irremediável promovido por nada mais do que as circunstâncias mesmas de haver nascido. Irresgatável. Mas o pátio se foi. Ergueram-se casas no lugar onde hoje mora gente com vida e tudo, diante das quais eu passo vez ou outra. Eu já escrevia o que, em vocalização, já falhava; eu só sentia um sei-lá-o-quê diante da incondicional separação concreta de quem, por natureza, deveria estar sempre perto de mim.

E foi assim que os pátios foram demolidos, as zonas de embarque alteradas, as mesas do café reabitadas. A porta do cinema fica, a cena da despedida se vai. A zona portuária fica, o par de turistas se vai. As janelas mudam seus inquilinos. A árvore e sua sombra sobrevivem à nossa estadia. A entrada da emergência recebe novos doentes, que já nenhum deles é o meu. A minha vida vai assim se espalhando feito um objeto que se esmigalha e deixa farelos por um mundo que sobrevive a mim. Vou eu compondo um banquete invisível, porém farto, para que a senilidade um dia possa consumir. E eu vou me tornando tão mais às custas de sobrar de mim sempre um pouco menos. Cresço e me expando enquanto me diminuo e me contraio — ambos movimentos cósmicos, acessos diversos ao mesmo destino: o desaparecimento.

Envelhecer.
É aproximar o queixo da ponta dos dedos do pé.
É curvar-se diante da grave idade.
É conceder ao peso do próprio corpo — maleta essa na qual carrego mais do que cabe no mundo inteiro.

E assim sigo meu périplo cansativo até que desapareçam meus dedos e, com eles, todos os meus incontáveis adeuses, deixando pra trás apenas um par de anéis para quem os queira usar. Seus novos donos nem imaginarão quanto carinho testemunharam, não saberão da pele, dos urros de anelo por voltar a tocar — ou sequer da lojinha mequetrefe na qual comprei um deles por 26 reais em 2006, numa esquina de Icaraí que, esta sim, já fechou e, ao menos ela, não sobreviverá a mim.

Phelipe Ribeiro Veiga
15 de maio de 2025

quarta-feira, 19 de março de 2025

Sobre um pelo branco.

Hoje eu percebi um pelo branco no meu braço e lembrei de você. Pensei nos seus olhos infantis. Na sua gargalhada hipersônica. No seu sorriso amplo o suficiente pra que num tempo de 3 segundos o sol nascesse no leste de seus lábios, cruzasse todo o céu de sua boca e se pusesse a oeste dos mesmos lábios. Eu vejo o pelo branco do meu braço e penso nos 16 natais que você perdeu, nos pequenos e nos grandes eventos, em todos os fevereiros não celebrados mas sempre lembrados. Penso também, inevitavelmente na linda e frágil flor que você arrancou do meu peito violentamente com raiz e tudo, e que até hoje deixa terra revolvida. Nunca mais voltou a crescer tamanha inocência de flor. Parece que você levou um sei lá o que meu contigo sem chance de recuperação. Eu pensei nas rugas que você nunca terá, nas marcas de expressão, de choro ou riso, que seu rosto nunca irá me mostrar. Pensei na sua cara feito uma máscara estática que me olha de volta na esquina da rua Estado de Israel, semi distante, acenando uma última vez, outra e outra vez. Pensei em quanto abraço guardei nesses anos, em quanta novidade não pude compartilhar com você, quanto ombro pra chorar minhas dores você não pôde me dar, e em todas as piadas sem graça que você deixou de contar pra rir sozinho de cada uma delas como você fazia. Pensei nessa hipotética vida em que você nos poupava a todos de tão grande estupidez. Em realidades onde éramos amantes, noutras onde éramos grandes amigos, umas ainda onde seríamos distantes conhecidos, mas que em todas, de algum modo, eu ainda te saberia por aí, sendo, estando para além de em meu peito alvejado. Eu pensei em todas essas coisas enquanto caminhava de uma plataforma a outra, carregando minha garrafa de água numa mão, um coração trincado no peito e um pelo branco no braço direito.

Phelipe Ribeiro Veiga
Rio, 19 de março de 2025

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Sobre um nado livre.








O copo transbordou e virou. O recipiente para o qual eu escoava todo o meu amor, minha expectativa de futuro, de correspondência, de acolhimento virou. Jorrou por sobre a mesa e agora escorre pra todos os lados. Distribuo o meu momento áureo como quem acende uma luz negando-se a vestir qualquer foco limitador. Eu quero brilhar em todas as direções. Abri o armário e tirei as roupas que a alfaiataria do meu desejo passou anos tecendo sob medida e hoje eu oferto, com os reparos possíveis e ajustes necessários, a quem possa ficar bem nelas. É sobre mim! Eu emergi da condição de acompanhante e agora eu quero é a companhia. Quero que vejam a imensidão do meu coração. Que o apreciem, que o valorizem sem atrasos grandes. Quero ser. Fazer. Estar. Gozar. A mesa pinga sobre o chão e eu, sentado ali frente a cadeira deixada vazia, assisto tudo escorrer sob o som do elogio tardio de "você é tão bonito". É verdade que seguir a despeito desse eco é ainda nadar na contramão da correnteza. Represei tantos rios pra que pudesse correr caudaloso em mim que agora toda uma reestruturação se faz necessária, para que tudo corra para minha própria conveniência. Mas é também verdade que descobri em mim a perícia de um nadador olímpico. Minhas largas costas que afagavas enquanto dormia já não suportam o peso solitário de fazer o que éramos parar de pé, elas sustentam as braçadas borboleta de minha aventura contra o sol. Se me interpelam, eu digo que não quero abrir mão de nada. Sou impertinente, intransigente, empertigado. É de uma reparação de mim para comigo que se trata. Eu quero e logo eu me oferto o que eu necessito. A escassez me fez faminto. A rejeição me fez ávido. A frustração langorosa me tornou impaciente. Hoje eu sou e exijo a consideração como condição primeira. Nada menos. Eu peço desculpas aos que eu esbarro, lamento imensamente na minha estrutural docilidade de ser que tenha que abalroar embarcações alheias vez ou outra, queria que não precisasse ser assim, mas é essencial e urgente que eu navegue impetuoso. Isso porque é grave a chance de domesticação da minha natureza, e eu não quero isso nunca mais. Eu me devo isso. Quanto às roupas que não couberam em ninguém mais, as que levam marcas do seu uso, do tempo em que nos vestimos em par, compondo fantasias em tantos carnavais, das lembranças e dos momentos, as guardo, não vou mentir. Ainda não há tecnologia em mim que me ajude a adaptá-las todas, a doá-las a outros ou a me desfazer delas. Mas sigo a despeito delas. 
Há duas noite vi um filme que você me apresentou, e quanto sentido havia ali do que viríamos a enfrentar e que, no começo de tudo, passou desapercebido. Na noite passada também sonhei contigo, e me manteve desperto um conjunto de sensações e hipóteses de fatalidades. Frente a tudo eu me vejo sem alternativas. Resignado. Ficou assim estancado. O que fomos é uma ilha (fluvial) de impotência no meu fluxo atual de potência. E é nessa potência que eu vou me havendo com os espólios em um compromisso absoluto com meu nado livre. 
Desculpe. 
Há que ser. 
Há de estar. 
A vida é assim:
trágica e épica. 
E ambas as dimensões dela nadam a-braçadas. 
Eu vou junto. Me levo junto.
Há. 

Phelipe R Veiga
Rio, 31 de Janeiro de 2025


 "Lugia, Ho-Oh, cabrón, yo soy legendario" (BB)


sexta-feira, 19 de julho de 2024

Sobre um cofre no peito.


É de uma longa caminhada que venho, e foi nesse processo de muitos anos que fui aprendendo a sanear meus comprometimentos. Não por mero rigor de sofisticação, mas pela necessidade de me curar do que me feria sem tanta demora e pela imperativa e categórica urgência de viver. Me demorar em sofrimentos já custou demais. Obstaculizar a desistência em dolorosas insistências me cobrou a excruciante e irreparável perda de muito tempo. Sei o que investi sem retorno. Sei o que perdido está e quanto me custou saber hoje do que sei. E é por tanto investido que preciso agir e atuar como alguém que sabe bem mais sobre como se equivoca melhor. 

Em meio a tanto meu coração foi se expandindo, fazendo puxadinhos e construindo cômodos, corredores, labirintos. Tá enorme! No que compõe o que sou é hoje em definitivo o meu metro quadrado mais caro. Tem vista, é arejado, hora por janelas, hora pelos rombos enormes que já fazem parte da construção. Emolduram a vista de dentro pra fora. É alto e, confesso, um pouco devassado. Mas estar vivo é estar visto, ouvi dizerem. Eu topo. 

E é em algum canto dessa construção um pouco gótica, um pouco modernista mas de fundações inquestionavelmente barrocas que eu construí um cofre, uma casa forte, um cômodo de paredes de aço. Ali eu guardo uma coleção de arte/fatos só meus. Iras enormes. Amores intensos. Uma coleção de tesões secretos e inconfessáveis. Mágoas. Pequenos instantes de felicidade preciosíssimos que eu jamais exporia a ninguém ao passo que entendo que não saberiam apreciar a delicadeza que têm pra mim. São as coisas que, pretendo, naufragarão comigo quando eu afundar junto ao meu navio. Não pretendo dividi-las com ninguém senão assim, de modo incerto e abstrato. 

Egoísmo? Talvez. Posse, quem sabe. Apego, sem sombra de dúvidas. É que tem coisas que já não vale a pena. Aprendi a me resignar. Foi difícil mas necessário. Aprendi a aceitar o não da vida e das pessoas com quem nela encontro. Sei que há discussões e querelas que secaram feito um ramo, ainda que dela eu guarde uma flor seca nas páginas de um livro num trecho específico da história que só eu sei o porquê. 

É minha a cena, são minhas as palavras não ditas e será pra sempre minha a secreta e já despretenciosa percepção dos fatos. A minha vida quem conta sou eu. E no que se fecha enquanto capítulo eu me recuso a dar a quem não faz mais parte da história a autoridade de participar de qualquer tipo de revisão. Eu prefiro o meu ponto de vista. Já que da minha história quem goza e sofre sou eu, também sou eu quem seguro a pena. O que fica de tudo que vivi pertence intensamente a mim. 

O que me dou a conflitar e discutir e debater é com o que segue vivo, com o que segue em disputa e em processo de (in)definição próprio das coisas que estão vivas. Essas outras coisas eu guardo do que já passou ou do que, ainda que com pernas por aí caminhando, para mim já morreu. Vivo assim com meus mortos. Lhes tenho o apreço que tenho (não por mérito deles), o respeito que de mim conquistaram (de novo, não por mérito), e o silêncio de sabe-los já não mais "aqui". 


Phelipe Ribeiro Veiga
Rio, 19 de Julho de 2024. 14h48

"y hay que entender que, muchas veces, 
solamente seremos
la forma que escogimos
para irnos." (Miguel Gane) 


quarta-feira, 3 de abril de 2024

(...)




Eu vi uma casa se despir.
Era uma despedida. Se despia dos quadros das paredes e exibia as marcas do tempo como um corpo que, após usar por longo período um acessório leva na pele as marcas dele. Apagou as luzes como quem limpa, borrando a cara, a maquiagem. Desmontou os móveis e os empilhou como quem desmonta todo um figurino e cuidadosamente o dobra sobre a areia fofa. Eu vi a casa se despir de costas pra mim sem dizer nada. Quando já completamente nua ela me olhou e eu a olhei de volta. No detalhe de tudo que a compunha rememorei as alegrias e as agruras que tive em seu corpo agora tão oco e habitado por ecos. Jazia vazia, tão nostálgica como só um túmulo cheio poderia se comparar. Trocamos mais olhares. Fitei suas janelas nos olhos e sorrimos um pro outro com a discrição secreta de quem olha pelas fechaduras. Nos agradecemos mudos com a sensação de uma  intima cumplicidade. Como dois amantes que desfrutaram um do outro em comunhão justa e real, ambos em paz com a conjugação madura dos prazeres e pesares. Então ela iniciou sua marcha.

Dali ela caminhou lenta a entrar num mar de memória (de)composta de tanta coisa. Eu a via como quem assiste um por do sol que lentamente deixa de estar, deixa de ser. Entrou no mar e se diluiu feito o menino de água de Hugo Mãe, feito Alfonsina, agora deixando pegadas apenas nas profundezas das hipóteses e das associações que ainda virão. Nos despedimos e dali em diante ela será pra sempre passado, mesmo quando se fizer presente. 

Respirei. Tomei as coisas deixadas. 

O figurino desmontado, a maquiagem que sobrava logo ao lado, os acessórios e fui em direção oposta. Ela pertencia ao passado e a mim cabia desembrulhar todo um enorme presente. Era hora de fantasiar um novo corpo-casa. Ornamentar paredes novas com coisas novas e antigas. Ressignificar os espólios e, em memória de todas as casas que tive, desde a da velha e distante infância até as da adultes tão gentrificada, domiciliar um novo canto da feli-cidade. 

De agora em diante há um novo endereço onde chegam as minhas correspondências e entregas. 
Há! 

Rio de Janeiro, 03 de Abril de 2024.
Phelipe R Veiga

"Aprenderei a amar as casas
quando entender que as casas são feitas de gente
que foi feita por gente
e que contem em si a possibilidade
de fazer gente." (M. Campilho)

sábado, 13 de janeiro de 2024

Acheronta movebo.




O pensamento me causa sensações. Feito um animal faminto te busca. Carregado por ele, voo baixo evitando as preocupações predadoras dos meus carinhos. Voo rente às folhas no chão e próximo às raízes profundas das árvores aprendendo delas a construir profundidades. Coisa urgente! Persigo o percurso como que por instinto. A bússola do meu desejo me aponta a direção. Sinto o frescor do chão húmido da enorme floresta pela qual passo e depois subo, inevitavelmente. Sinto o vento frio da montanha que sobrevoo e, depois, o cheiro do escapamento dos carros da cidade onde você mora. Invisível, te persigo. Não demora nada, entre uma multidão de transeuntes eu te vejo. A paisagem que busco.  

Reconheço as roupas e vejo com clareza o seu corpo nu por debaixo delas. Reconto as pintas do seu pescoço para verificar se ninguém te (ou me) roubou nenhuma delas. Contabilizo as marquinhas todas do seu corpo que eu fiz de tudo para memorizar como quem conta avaro minúsculas moedas de ouro que compõem uma enorme riqueza. Depois vejo os caracóis dos seus cabelos sempre molhados balançarem na brisa. Tento inutilmente ajeitar um fio que te cai na testa e que, eu sei, te incomodaria sabe-lo ali. Não consigo. Toco o lóbulo da sua orelha e sinto a temperatura fria dela como sempre gosto de fazer. Depois eu desço. Aperto seu quadril assedioso como só em imaginação posso ser e te sinto sem você sentir. Constrangido, subo pelas suas costas como quem sobrevoa um vale imenso e, mergulhando pele adentro e espinha acima, alcanço rápido o sopé dos seus pensamentos. Resisto, por apreço à sua intimidade, à tentação de, acima do seu tronco cefálico, parar sobre a ponte e ver passar embaixo dela seu fluxo intenso. Subo de novo à altura da pele e sinto o cheiro inebriante de sua nuca. O sinto tão intensamente que você, imagino, chega a levar a mão e se coçar em reação ao meu imaginário suspiro. 

Te vejo esbarrar. Te ouço se desculpar. Aqui de onde estou, sorrio sem usar a boca ao te ver passar sem usar os olhos. Te vasculho inteiro e atesouro em hipótese o máximo de detalhes seus que posso antes de voltar, teletransportado, ao meu peito apertado e ao meu corpo tão seccionado do seu e ao mesmo tempo tão nele misturado. Retomo os imperativos categóricos da vida. Diabrura dolorosa é a distância. Eu, ateu de deuses, assumo que me curvo à onipresença da sua ausência. Mas só até onde sou obrigado. Apenas parcialmente. Porque no que posso, sempre que posso e como posso, faço de um tudo por degradá-la, ainda que em imaginação, o que por bem





 consigo. 




Rio, 14 de janeiro de 2024
Phelipe Ribeiro Veiga

"Se na bagunça do teu coraçãoMeu sangue errou de veia e se perdeu" (CB) 







quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Sobre os efeitos cronológicos do sentimento.




Os sentimentos sim é que são os senhores do tempo. 

O amor torna um fim de semana uma vida inteira. O tédio, uma hora uma semana e meia. O sofrimento, seis meses em seis anos. Os afetos pesam a mão nos ponteiros dos relógios, rasuram calendários, nos transportam pra passados, nos empurram pra hipotéticos futuros. O sentir é viajar no tempo e no espaço. É ser e estar desafiando todas as leis da física. É inclusive estar em vários lugares ao mesmo tempo, e, às vezes, dois corpos ocuparem o mesmo lugar no espaço.

Entretanto, há dentre todos, o super efeito da tristeza. A mão mais pesada sobre os ponteiros do relógio. Isso porque o sofrimento não estanca o tempo, ele estraçalha o relógio. Ele não rasura o calendário, ele o arranca da parede e o faz em pedaços, fazendo mosaicos afrontosos no chão da cozinha, de modo que você perde a noção de continuidade e já não sabe de onde veio, pra onde vai, e nem sequer a ordem dos dias da semana. Você não sabe diferenciar o ontem do amanhã, nem que dia é hoje. O sofrimento nos encapsula e nos leva pra um lugar onde ser é doer e estar é sofrer. Tempo e espaço são abolidos violentamente. E se ou quando voltamos desse passeio nefasto, envelhecemos tanto. Envelhecem os sonhos, as esperanças, a credibilidade no bonito das coisas, o apreço na percepção do mundo. Isso porque mais que tudo, o sofrimento nos envelhece o olhar.  Perder-se no vácuo anacrônico pra onde nos leva nos pode custar a vida, podemos esquecer o caminho de volta e isso pode ser a extinção de tanta coisa do que somos, mesmo pros que se preserve um coração funcional no final de tudo. 

Diante do assalto do sofrimento só nos resta achar a máquina do tempo que é o encantamento de voltar a se alegrar. "Voltar" a estar feliz é retroceder, rejuvenescer, retocar a realidade e maquiar as marcas de expressão deixadas, recuperar cores perdidas e, frequentemente, tonalidades novas. Ganharmos de volta, dizem, um tal viço, um tão falado brilho. Mas a marca indelével do passeio no vazio do sofrer jaz ali. Uma cicatriz. Jamais seremos os mesmos. Jamais teremos a mesma idade de novo.

Eu, enquanto flutuo no vácuo, reflito e concluo: 

São sim os nossos sentimentos os senhores do tempo. 
E dentre eles, é sim o sofrimento o mais nefasto inimigo das horas. 

4 de outubro de 2023 (?) 
Phelipe Ribeiro Veiga


"Dentro de um livro na cinza das horas" - (AC)


"Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível!
A existência sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu és a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo,
minha amiga mais querida!
Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
." (VM) 


"São mitos de calendário 
tanto o ontem como o agora, 
e o teu aniversário 
é um nascer toda a hora" (CDA)

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Sobre a atitude furta cor.




De fato.

Furta cor a tua atitude tão rasteira, deixando o que restava de nós monocromático. Feito filme antigo, cinema mutado, como um anacronismo. O apreço ao detalhe para machucar, a especificidade minuciosa do toque na ferida aberta e em câmera lenta me surpreende. Incolor, teu furto se deu feito uma mensagem na garrafa que, ao invés de você lançar ao mar, você a atirou na minha cara com uma violência travestida de normalidade. 

É verdade que há um tempo você me disse do normal que é pra você certa agressividade no amor. "Dizemos o que dizemos e depois é só se desculpar. Assim que era", você me disse. E falamos de como pra mim, concessionário doentiamente ilimitado pra ter paz, isso era impraticável. Portanto, não há novidade na agressão, e nem há ignorância da sua parte sobre o que você fez comigo, me conhecendo tanto. A novidade está no rigor ao capricho e ao detalhe. Das múltiplas versões de ti, essa eu ainda não conhecia.  

Desconheço tamanho preciosismo por eu ter convivido tanto com sua escusada personalidade tão usualmente distraída. Torço pra que seja uma habilidade nova. E que ela seja versátil o suficiente pra que você possa exercer a mesma minuciosa apreciação do sutil das coisas não só pra ferir mas também pra fazer feliz. A você e a seja lá quem for. 

Vinicius tinha razão quando dizia que era desprovido de cor todos os momentos de despedida. Você pode não ter me ensinado o porquê, mas definitivamente me mostrou o como.

Merecíamos mais? Quanto a nós eu não sei. 
Quanto a mim, definitivamente sim. 
Não há. 

Phelipe Ribeiro Veiga
02 de outubro de 2023 - 13h46

"Entra pra ver como você deixou o lugar
E o tempo que levou pra arrumar aquela gaveta
Entra pra ver, mas tira o sapato pra entrar.
Cuidado que eu mudei de lugar algumas certezas
Pra não te magoar. Não tem porquê. Pra ajudar teu analista
Desculpa." (Cícero) 
 
"Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação. " (VM)

"Giro um simples compassoE num círculo eu faço o mundo (que descolorirá)" (VM)


sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Sobre o meu lado da história.

Há sempre muitas maneiras de contar uma história, e a nossa eu sempre escolherei contar mesmo é pelo começo. E não porque ela tenha caído no clichê dos dias ou na rotina ensossa dos que se deixam carcomer pelo tédio e pela seguridade de um amor tácito e palpável. Não. Mas porque admiro a integridade do que fomos capazes de ser e fazer, e as boas histórias se fazem num arco crescente que carece de ser contada é pelo começo mesmo. A nossa, pra mim, será sempre assim. 

Foi com você que aprendi a gravidade das conversas, a não banalizar as reclamações e da importância do entendimento, fazendo valer bem mais o que digo do que o que falo. Aprendi que posso ser amado de modos distintos aos meus modos de amar. Aprendi que a leveza precisa ter seu lugar. Aprendi limites e aprendi da falta que faz perdê-los de vista. Aprendi o respeito e aprendi a nuclear importância da admiração. Foi em nós que aprendi a parceira e o companheirismo em sentidos para os quais eu nunca tinha me deixado ser encontrado antes. Compartilhávamos o pão sob os céus dos quatro pontos cardeais. Você me ensinou a ter pequenas e grandes coragens e a dar grande importância aos meus pequenos medos. Você me ensinou que dá pra tentar um pouco de tudo e que não custa acreditar. Além disso, também me ensinou a gostar de cebola e a beber café sem açúcar. 

Por essas e tantas coisas é que o que levo de ti não é o que a mágoa mancha, o que o medo da perda arranha nem o que o apego, tornado em aperto, acabou por produzir. O que levo é o homem com olhar e olhos de menino choroso ao pé de um barco sob um céu longe daqui me explicando que não sabia o que fazer, mas que sabia o que queria. Levo a lembrança de sua risada que ri com o corpo todo. O abraço em fuga. Os hábitos estranho e engraçados. As composições diárias e os apelidos esquisitos. A companhia que inexplicavelmente me fez ficar tanto e me faz ser tão pesado partir. Guardo de ti experiências enormes, saudades gigantescas e um grande amigo de quem sempre sentirei falta. Uma vez você, raivoso, me disse não ser extraordinário. E talvez não o seja. Talvez tampouco eu o seja. Mas foi extraordinário o que fomos capazes de ser. Foi e terá sido, pra sempre, uma grande aventura. 

Quanto a você, do seu lado, sei pouco ou nada. Mas estou em paz. Eu e minha saudade nos sentamos tarde sim, tarde também a lamuriar e trocar lembranças, e rimos de umas, choramos de outras e, fazendo o melhor que podemos, e em prol de que lembrar seja o mais gostoso possível, desviamos ao máximo dos ressentimentos, estes tão naturais de histórias longas. O meu lado da história é esse e de mim ninguém pode tira-lo. É o meu pra sempre que deu pra fazer. É pitoresco, fantasioso como todo amor precisa ser pra poder ser, e é triste como só as melhores lembranças necessariamente são. Mas, acima de tudo, ainda que só e ainda que só meu, é meu. Pra sempre. 

22 de setembro de 2023, 19h50
Phelipe Ribeiro Veiga. 

"Não, nada irá neste mundo
Apagar o desenho que temos aqui
Nem o maior dos seus erros
Meus erros, remorsos
O farão sumir.
(...) 
Nada, nem que a gente morra
Desmente o que agora
Chega à minha voz" (Caetano Veloso) 

"Barreremos cada uno ‘pa’ su casa
y quizá aprenderemos cuatro cosas nuevas,
no se borrará tu olor por más que llueva,
que el amor que deja huella no fracasa." (Juan Gomez Canca) 

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Sobre um corolário de sombras.





Pouco a pouco as coisas vão ganhando titularidades e a casa onde moro vai sendo habitada por um mobiliário estranho. Nem os quadros estão mais nos mesmos lugares, apesar de não terem se movido um centímetro. Talvez porque o que mudou foram as paredes. Faz parte desse meu cotidiano trânsito entre dois mundos. Um pé no passado e outro no presente, sob um abismo obscuro dividindo os dois a que apelidei de futuro. 

Vejo uma sombra passando da cozinha pro quarto, voltando do banheiro pra sala. Vivo eu e ela, a sombra. A sombra cobre a metade do quarto, da sala, do sofá e do meu pensamento. Dotada de toda uma autonomia, caminha daqui para acolá e faz suas coisas, e cantarola num eco distante. Ponho música alta pra ensurdecer-me e finjo não notar o fantasmagórico mover de coisas na cozinha quando já não há ninguém. Às vezes me deixa copos pra eu lavar. Eu lavo. Ela também me deixa contas pra eu pagar. Eu pago. É tributário o meu convívio com ela. 

Hoje o acordar é um gradual desvanecer do mundo ao meu redor, é assistí-lo (a) perder resoluções. E pouco a pouco a sombra dá as mãos a uma ciranda de outras sombras, compondo o pesado corolário que levo sobre a cabeça. É minha coleção de despedidas. Prêmios de minha incompetência em fazer o tempo parar. Em fazer durar chuvas de verão ou encerrar estios antes que me sequem as lavouras todas. É a repercussão desse meu timing desencontrado de todos os demais ou quem sabe é só pura má sorte ou azar, ou os dois, caso não sejam a mesma coisa. 

Ouço as portas se fecharem, todas. O virar de chave, várias. As costas caminhando em direção às escadas ou aos elevadores ou portas. Fico eu, sempre igual e na mesma situação, mão nas chaves, testa colada à madeira das portas, olhos fechados, só e assombrado pela sobra última que levo presa à planta dos pés e que me aponta o dedo acusatoriamente. Se ao menos dentre tanta sombra uma me servisse para sentar-me embaixo dela e ler um livro. Mas nem isso. Apenas me pesam a cabeça e o peito. Apenas. 

Não há.

Phelipe Ribeiro Veiga
Rio, 18 de setembro de 2023. 11h52


"Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce." (Vinicius de Moraes) 

"It's strange what desire will make foolish people do" - Chris Isaak

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Sobre a recordação de uma recordação de uma recordação de tempos mais eróticos.




Não havia sequer uma porta. Esse batente que em ambientes fechados emoldura todas as partidas ali não existia.  Havia sobre nós apenas o céu estrelado que emoldura todas as coisas vivas. O vinho gotejava da boca da garrafa e se misturava às areias embriagando o corpo inteiro da praia. O mar se esgueirava curioso praia acima, sorrateiramente espiando o nosso transe e a nossa transa. Tudo era maresia e uma composição impossível entre silêncio e canção. Seus poros suavam mar e evaporavam estrelas. Suspirávamos ventanias litorâneas. Nós e a praia e o céu havíamos nos unido. Éramos uma só existência. Eu sei disso porque quando chegou o momento eu senti as areias pulsarem, o vento gemer, o mar ejacular sobre a terra e o céu se contrair. A natureza inteira gozou conosco. E foi naquela noite enquanto você, emoldurado de amanhecer, se lavava no mar ainda excitado por nós que eu descobri que Caetano também cantava em inglês. Às vezes me pego pensando em quanta saudade aquela praia não deve sentir de nós! 

Phelipe Ribeiro Veiga
21 de fevereiro de 2014 - 20:13
(postado em 22 de agosto de 2023 às 13h00)

No verde lençol da areia 
Um marco ficou cravado 
Moldando a forma de um corpo 
No meio da cruz de uns braços. 
Talvez que o marco, criança 
Já o tenha lavado o mar 
Mas nunca leva a lembrança 
Daquela noite de amores 
Na praia do Vidigal. (Vinicius de Moraes)

domingo, 20 de agosto de 2023

Sobre o desajeito e as formas de amar.




Muito se fala de como o amor é o mais belo dos sentimentos. Fala-se de valorizar o amor. De sua raridade. De não deixa-lo escapar. De se brigar por ele. Quando o que mais importa é a forma com que se ama ou se é amado. O encontro com o amor se faz épico ou trágico a depender do modo como se dá esse encontro.

Afinal, faz menos estrago um inimigo que nos odeia de maneira ética do que um amante que nos ama de modo desajeitado. É grave a coisa do desajeito. É um bicho em forma de comportamento que deforma qualquer sentimento. É perdoável que às vezes ele advenha da falta de prática, da inexperiência ou até da incompetência. E é verdade também que há por aí os bem intencionados incapazes da busca por se amar bem, e que deus nos proteja desses pequenos monstrinhos inimputáveis. Destes não nos restará sequer o direito de nos ressentirmos. Eles não tem culpa de nascerem assim. 

Mas como diferenciar a ignorância como condição da ignorância como adesão em forma de álibi e estratégia para obtenção de seus consequentes privilégios? Da ignorância como um tipo de anistia a que se apela para não se ajeitar no seu modo de amar? Há esse caso em que um certo tipo de índole configura uma postura indolente, não zelosa e preguiçosa diante do labor cansativo advindo desse compromisso estruturante do encontro saudável de dois (ou mais), que é o bem viver. É a preguiça que, acumulada, se desvela num desmerecimento absoluto. Quem tem preguiça de amar de um jeito bom não mereceria ser amado de jeito nenhum. Para a  sorte destes (e para o azar de muitos) o amor não é questão de mérito.

Fato é que sem dedicarmos tempo a reconhecermos no amor uma forma, podemos estar apoiando a vida num pedregulho cortante, ou perdendo a possibilidade de amarmos melhor. Há que se compor. Há que se esculpir com suor e esforço, o que se apresente digno de mútua contemplação. E é essencial que se goste de como se gosta e de como se é gostado. Faz sentido admirar-se e respeitar-se enquanto sujeito que ama da melhor maneira que consegue. Isso nos condiciona também enquanto recebedores do amor de outros. Além disso, importa olhar pro amor que se faz junto e esboçar um suado sorriso de satisfação. Um gozo que alimenta a gente de uma certa fome que reside em algum lugar que fica entre a nossa pele e o resto do mundo. 

Porque o amor é para isso. Para contemplação e saciedade dessa fome estranha que parece nascer com a gente. Uma urgência de pertencer e de se aconchegar. Feito uma busca por um novo útero que nos caiba de algum modo. Um refúgio para esse "por enquanto" a que chamamos vida. O problema das fomes é a condição na qual elas se dão. A depender do tamanho da fome, migalhas se tornam banquetes. A depender do desespero por aconchego, um pedregulho pode se confundir com obra de arte abstrata só pra gente arranjar no quê se apoiar. E com o tempo a gente se acostuma às dietas mais indignas e às posições mais desconfortáveis. 

Umas vez o escultor disse que a maneira mais rápida de descobrir as partes essenciais de uma escultura era empurrá-la de um penhasco. Eu diria que quem chega ao ponto de empurrar penhasco abaixo o que tão duramente custou esculpir, pode ser que não compreenda o árduo trabalho de amar. É a forma a que se deve valorizar, e é pela forma que devemos lutar. Quem atira o amor morro abaixo para descobrir o quê de essencial há, ou é por que o essencial já se perdeu de vista, ou porque talvez nunca tenha estado ali, ou ainda porque é mesmo só mais um desajeitado. 

20 de agosto de 2023. 21h52
Phelipe R Veiga





terça-feira, 8 de agosto de 2023

Sobre a queda da Babilônia.

 


De longe, depois de um longo silêncio, houve o estalo. 


(...)


Lascou feito um grito rochoso desesperado, e, depois de um breve silêncio pontilhado por pequenas pedrinhas rolando, começou a desmoronar em som crescente.

de estalo à ruído, 

de ruído à estrondo

de estrondo ao som do fim de um mundo. 

Era no meu peito a tragédia, porém se expandia por todo meu corpo. Ecoava pelos meus braços e pelas minhas mãos trêmulas sacudindo até as pontas dos meus dedos. Minhas pernas contraíram-se de modo a sustentar o que restava de pé, e o fez, suportando o peso inteiro do desastre.

Os enormes pedaços caíram nos mares que ilhavam o monumento criando gigantescas ondas nos meus olhos salgados e esverdeados que engoliram tudo. Afogaram meus olhos de tal modo que o mundo ao meu redor ainda jaz submarino. 

O tremor do desmoronamento se pôde sentir até pelos pensamentos mais simplórios que, desatentos cruzando minhas pontes sinápticas, caíram vários para um esquecimento de nunca mais. Conexões se romperam e áreas inteiras foram feitas estéreis e isoladas das minhas intensas e coloridas tempestades neuronais. Uma densa nuvem de poeira subiu pescoço acima, passando pela garganta, escalando pelo tronco encefálico e cobrindo tudo, inclusive as memórias. Ali a visibilidade ainda é nenhuma. O estrago, desconhecido.

Pelo romper das barragens que o desmoronamento do peito causou, a boca foi drenada, ficando apenas um gosto amargo do lodo deixado pelas palavras que, feito peixes afogados no seco, saltavam naqueles espasmos característicos de quem já não vive mas ainda não morre. 

Meus ouvidos, sempre atentos ao exterior, ensurdeceram-se pelo ressoar intenso que recorria cada pedaço do meu interior. Estava ensurdecido pro mundo pelo som que ecoava vindo de dentro de mim. 

Meus poros vazaram pó e vapor quente. Feito uma chaleira, gritavam. Clamavam e avisavam: Caiu! Caiu! 

Meu peito desmoronou. Minha alma, tectônica, moveu-se e deslocou meu norte de um modo que ainda não o encontro. Minha dor entrou em erupção. Meu corpo ainda treme inteiro sem saber quais estruturas foram comprometidas e o que mais ainda está por cair.
 
Enquanto isso, meus poros seguem gritando: 

"Caiu! Caiu!"

08 de agosto de 2023 - 14h19
Phelipe Ribeiro Veiga


"A Babilônia caiu de repente e ficou arruinada. Lamentem por ela! Consigam bálsamo para a ferida dela; talvez ela possa ser curada. "Gostaríamos de ter curado Babilônia, mas ela não pode ser curada; deixem-na e vamos cada um para a sua própria terra, pois o julgamento dela chega ao céu, eleva-se tão alto quanto as nuvens." (Jeremias, Cap 51, vers. 8 e 9) 


"Preste atenção, querida
De cada amor, tu herdarás só o cinismo
Quando notares, estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés" (Cartola) 





Sobre amar os covardes.

É difícil amar os covardes.  E não é que não tenham seu apelo. Suas famílias funcionais, suas declarações contundentes, suas carreiras estáv...