quarta-feira, 25 de março de 2026

Sobre como as coisas são.




É que é assim mesmo.

A gente aposta, perde um pouco, ganha um pouco, e, no fim, conta as fichas e vê o que dá pra fazer com o valor que sobra. E tantas vezes não custeia uma ida até a próxima esquina. Mas tudo é pra sempre mesmo o que foi.

É que é assim mesmo.

A gente sente uma vontade de se refrescar nas águas sem pensar no clima, na direção do vento, no caminhar das nuvens. E aí, quando sai, tem que se haver com o bater dos dentes, com não ter trazido toalha, com não poder pedir carona por estar inadequado para se sentar no banco de passageiro de ninguém. Restando apenas suportar o frio da própria inconsequência e imediatismo, resultado de se deixar seduzir pela tola ideia de se molhar. 

É que é assim mesmo.

A gente escuta a promessa, acredita, se estrepa e fica vendo o cômico e o irremediável diante da realização do que tantas vezes é tragédia anunciada. É quase um rir de si mesmo. Do papel de panaca que tantas vezes nos prestamos ao dar a volta no quarteirão e pisar na mesma bosta de cachorro que ainda conserva a marca do nosso sapato desde a última vez.

E aí, já que é assim mesmo, toca seguir. 

Arrastando o que dá pra arrastar, inclusive a si mesmo. Toca colar o que dá com o cuspe da própria língua, ou às vezes da língua dos outros. Toca ir mancando. Toca vestir a roupa rota. Calçar o sapato, mesmo que descolando a sola com a pedra dentro. É o sapato que resta, ao pé que resta, ao passo que resta no caminho do que te é possível. 

Toca seguir com o que não dá mesmo. Toca seguir. Porque amanhã é quinta-feira, tem aula, tem trabalho, e tem que cozinhar arroz, e, além disso, vence a fatura do gás.


Rio de Janeiro, 25 de março de 2026.
Phelipe Ribeiro Veiga.

Um comentário:

Anônimo disse...

💔

Sobre como as coisas são.

É que é assim mesmo. A gente aposta, perde um pouco, ganha um pouco, e, no fim, conta as fichas  e  vê o que dá pra fazer com o valor que so...