sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sobre Astro-Lábios (Um texto antigo).


Aboli de mim o relógio de metal com seus ponteiros de aço frio e indiferentes. Aderi ao relógio de carne que me deu a Vida, que acelera os segundos ou desacelera-o, e pára quando eu me for. Navega meu coração neste oceano de dias desconhecidos, consulta teu "astro-lábio" e guia-te sob o conselho amoroso das estrelas. Com sorte has de aportar numa terra virgem, de gente de verdade, darás a ela teu nome, chamar-lhe-a tua morada, tua casa, seu lar.

Phelipe Ribeiro Veiga
8 de Novembro de 2012 - 9:39

Um texto antigo às vezes faz sentido. Um texto não se recicla tanto quanto um sentimento não se "re-sente", mas as mesmas palavras repetidas em um tempo novo dizem coisas totalmente novas.

"Mesmo no que se repete
permanece alguma novidade:
A Vida, em sua plenitude sexual,
ainda conserva a virgindade."

Marla de Queiroz

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Sobre uma oração a Drummond. (Uma quase ficção).



"Sento-me aqui junto de ti poeta, para, mediante sua escultura sempre paciente, sempre imóvel (irredutível eu diria), diante do mar, rememorar a mim mesmo das coisas que são eternas. Venho a ti, poeta, para chorar e sofrer dos meus medos perecíveis que carrego. Tão perecíveis quanto a juventude que arde e me onera com esses efeitos colaterais do que é o excesso de disposição e desconhecimento que trago no peito. 

O Amanhã escancara a mandíbula e ainda não sei se se debruça em minha direção para beijar-me ou morder-me, ou ambos... Não sei ler os olhares dos olhos fechados do futuro. Só sei que temo. Os dias vão erodindo os próprios dias, e abrindo fendas na minha pele e nas distâncias que tão cuidadosamente tenho cultivado daqueles que amo. 

Não tenho mais de cem anos feito tu, poeta, não compreendo os amores não retribuídos de João e Teresa e Raimundo e Maria ou Joaquim, não sei lidar com as pedras que encontro no caminho, e talvez aprenda um dia, mas ainda não faço rimas com elas.  

E aí o que venho pedir afinal? O que me faz orar a um poeta (jamais) morto? 

A outra face do desconhecimento dos dias - a surpresa.

À luz de uma boa vontade, ao som do mar (mesmo longe do mar), que eu encontre rimas novas, textos que me gerem estupor e dias que me tragam sorrisos. Quem sabe o que o Amanhã, mesmo agressivo e vindo para o embate, sentirá ao ver-me sorrir para ele com tanta alegria e boa vontade? Poeta, me ajude a alegrar a tristeza e comover a violência e encontrar o amor e a não morrer de saudades. 

Com amor e um doce "Amém". "

E.M.

Phelipe Ribeiro Veiga
09 de Fevereiro de 2013 - 17:03

Baseado em fatos reais, sobre um menino que orava a Drummond e soube encontrar despretensiosamente com o poeta em três diferentes cidades. 



"Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que a poesia está contida nisso tudo." - C. Drummond


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Sobre uma reflexão em três tempos.



Celebro a minha ignorância quanto ao ser humano. Pois o desconhecido justifica a continuidade dos dias, move o meu relógio. Como pode sermos tão feios e tão bonitos de perto? Somos feito uma camiseta, que quando vista de muito perto revela-se o encontro cuidadoso de vários fios tecidos carinhosamente pelos nossos dias de antes e de depois de nós, vindos de várias direções, de uma beleza e complexidade que superam em muito a estampa que qualquer um de nós possa valorizar e adorar. Não, eu não sei quem sou, nem quem você é! Quando conheço alguém sento-me cuidadosamente numa praia e começo a contar os grãos de areia sob a ventania forte do Tempo. Quando acabado a contagem terei conhecido inteiramente alguém, o que jamais acontecerá... 

(...)

E aí a gente estupra as possibilidades afim de dar viabilidade aos nossos desejos, tentando fecundar tais possibilidades violentamente, tentando fazer um sonho nascer realidade. O fato é que feito um homem que não pode impedir uma mulher, que carrega em seu ventre seu filho 9 meses sem intervalos de abortá-lo, assim também não podemos impedir a Vida de interromper a concepção daquilo que fecundamos nela à força. A Vida é indomável feito o desejo de uma criança...

(...)

Porque são tantos os amores possíveis e tão poucos os amores prováveis...

(...)

Phelipe Ribeiro Veiga
03 de Fevereiro de 2013 - 03:42




domingo, 20 de janeiro de 2013

Sobre uma guerra civil (no Ser).




Quando as conclusões atrasam, você sabe, fecundou-se o desastre. Incham-se os medos, náuseas assolam seus prognósticos constantemente. O mundo assombroso. O denso. O tenso. Dali a um tempo nasce com dores e contrações uma tragédia. Assim se deu a deterioração do que sou. Há esses dias, verdade. Olho-me no espelho e não sou digno do meu nome de nascido, escolhido com amor por meus pais, ou seria isso puro fruto de uma comparação brutal com o que admiro do lado de fora? Ou seria isso a pura consciência (também brutal) do que admito por dentro? 

Não! Não tenho estado bem. Aprendi tanto a me amar e adular com prazeres as minhas "qualidades", que desaprendi o desprezo de mim, o desprendimento de minha vaidade. Ah a vaidade! Colou-me na pele feito tecido derretido, ferimento causado na guerra civil que há anos me acometeu gravemente por dentro. Sou habitante dos extremos! Agora adoeço tentando amar-me desprezando-me ao mesmo tempo. Tentando conceber um amor que seja "mesmo assim", e um desprezo advenha de um "apesar de que". 

Batalhas são travadas com a ignorância com que sempre são. O brutal não adere a sutilezas. Um furacão não pede licença. Uma onda não desvia do que os homens tem apreço ou apego. Calamidade! Decreto estado de sítio em minha alma! A lei marcial em meu coração, e lágrimas torrenciais em meus olhos. 

Quem vencerá? 
Enquanto o amor e o ódio por mim mesmo se digladiam na mente e no coração em prol da conquista de uma conclusão que seja, tudo que busco é um armistício onde eu possa me amar e me odiar sem me desintegrar por inteiro, ou mesmo pela metade... 

Phelipe Ribeiro Veiga
20 de Janeiro de 2013 - 17:02


Paro no meio da rua
Me atropelei demais
Alguém pergunta as horas
Ou então vai me matar - (Guerra Civil - Cazuza)


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Sobre uma meretriz desesperada.



A Poesia me abordou feito uma meretriz desesperada, com muitas fomes, cheia de urgências, como uma mulher no cio. Ela me cobrou tudo que sou sem me dar chance de dizer não e ofereceu-me em troca uma noite eterna, e orgasmos sem enquanto. Rasgou tudo que me encobria, exigiu de mim a nudez da alma. Fez-me suportar o frio de minha própria existência. Me despiu feito a luz que despe a sombra, rasgou minha primeira e minha segunda  e minha terceira pele, alojou-se no subsolo dos meus sentimentos, erodiu minhas identidades todas. A Poesia me bagunçou inteiro, fez de mim caos, cacos, pedaços de um todo que vou remontando enquanto ela bagunça de novo. A Poesia me mutilou inteiro, roubou meus sentidos, meus membros todos, nem mesmo meu sexo escapou. A Poesia me fez fetiche do meu próprio fetiche. Fez-me voyeur do milagre natural da Vida. Fez da sensação o centro da galáxia, um imenso buraco negro onde não há tempo ou espaço. Pôs o meu amor do avesso. A Poesia usurpou de mim o principado de mim mesmo. Fez-me só olhos, e em cada poro meu ela emula uma diferente expressão. Ela ri e chora em mim e de mim, goza com meu prazer e com meu horror e não hesita em rimar mesmo meu mais tenebroso pavor, sou seu caminho pro tudo e pro nada, e ela é a minha Vida inteira. A Poesia me matou e me fez viver para sempre. Sou a subtração de todas as coisas que eu poderia ter sido, e a soma de tudo que jamais pensei me tornar por causa dela, a Poesia fez isso tudo por puro capricho. A Poesia roubou-me a Vida inteira, me deu a vocação da Morte por afogamento em tudo que a Vida faz sentir e finge ser. Somos!

Phelipe Ribeiro Veiga
26 de Dezembro de 2012 - 22:09

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Reflexões Sobre viver.




Tudo velho de novo. A Vida insiste em alguns pontos, e por mais que eu entenda que há propósito em cada simples impulso de seu fluxo natural e desproposital, me canso de reabrir as mesmas feridas, e cuidar para sará-las de novo e de novo...

A sofisticação alcança tudo ao redor, mas o peito bate do mesmo jeito primitivo que batia há dez mil anos. Por dentro nada mudou. O que ocorre, tristemente é que só florescemos as sementes que a natureza vem semeando na gente de tempos em tempos. Em tudo que somos bons, ficamos melhores. Em tudo que somos mal, nos tornamos piores. Achamos formas certas de fazer as coisas erradas e assim seguimos com pressa se sermos seja lá o quê, chegarmos seja lá onde...

A pequenez se engrandece de ano em ano. Convenço-me da finitude, dói-me saudades de quem se foi, sente-se medo da ida de quem está, e receio pelo quê e quem está por vir. Enobrece-me a minha condição humana enquanto ser profundamente covarde que sou. Tudo que minha espécie fez não foi para promulgar a grandeza da Vida, a imensidão do fato de estarmos aqui, intensificar a nossa experiência enquanto seres vivos e sensíveis a nós mesmos e aos que nos cercam. Tudo que nós fizemos foi dissolver o que somos no máximo de dias possíveis, com o mínimo de riscos, com a maior probabilidade de... durar.

Tenho tentado seguir um caminho excelente. Fugir da sobre-vivência. Mas horas há que minha natureza medonha fala mais alto e atropela minhas paixões. Quem sou? O que sou? Há tantos... Calemo-nos. 
No silêncio pode morar a paz. Pode ser que more... 
Tolices...

Phelipe Ribeiro Veiga
24 de Dezembro de 2012 - 12:17




sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sobre a grave idade (o último epitáfio de anos).

 
 
Há gravidade, a gravidade... Ah gravidade!
 
A realidade?!
 
Há grave idade!
 
Somadas não há nada mais grave!
 
O fato é que tenho sentido as coisas de modo mais grave, a maternidade de minha mãe, a amizade dos meus amigos, a obrigatoriedade do trabalho.Tudo tem sido grave feito um grande evento de proporções tão individuais quanto microscópicas.
 
Houve um tempo onde celebrava a passagem dos anos, refletia passados, avaliava o saldo da Vida.. Pensava... "é... Foi bom! Há de ser melhor"
 
Hoje não mais.
 
A partir de agora não faço mais epitáfios de anos, sendo este meu último. Não celebrarei mais de forma tão avaliativa ciclos que na verdade não são, mas gozarei do todo indivizível da Vida, indiscriminável, inseparável desde aquela quarta-feira de 25 anos atrás.
 
Não espero melhoras, não espero pioras também para a data de amanhã. A Vida se dá por sentimentos, sensações, e não por frações do tempo, insinuações quantitativas da nossa passagem furtiva pelo que somos.
 
A Vida ignora calendários. Aprendi.
 
Há gravidade...
E por tanta "gravidez" da Vida, e pelo tempo que não se conta na realidade dos fatos, mas pelos próprios fatos que estão sempre o esticando ou comprimindo, por tudo isso, nesse momento onde todos celebram as datas chocando taças de cristal e champagne, eu quero brindar meu corpo no teu, sacudir o líquido vermelho que carregamos, derramar-me no choque do que sou com tudo que amo, emitir estridente o som desse encontro em um grave, gravíssimo, gravissíssimo... Abraço... todos os dias.

Não há NADA mais grave que um abraço!

_Me abraça?!

Phelipe Ribeiro Veiga
21 de Dezembro de 2012 - 12:52

"Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente." (Poema de Natal - Vinícius de Moraes)

Sobre amar os covardes.

É difícil amar os covardes.  E não é que não tenham seu apelo. Suas famílias funcionais, suas declarações contundentes, suas carreiras estáv...