quarta-feira, 13 de junho de 2012

Sobre hospitais.




Neste templo de vida e de morte, lugar de chegada, de partida e de agonia e alegria  as paredes ecoam solidão. Seus sacerdotes não estão onde estão, estão trabalhando. Meu sofrer é matéria prima de olhos técnicos que não se compadecem, não me tocam, não sabem quem eu sou, querem salvar-me por um dever descompromissado comigo. Aqui não sou ninguém, aqui não sabem quem eu sou. Nem aqui nem em lugar algum. Solidão ecoa, desamparo não perdoa, e eu agonizo a espera quem não sabe cuidar, só aprendeu a curar... E que Deus me proteja e a Vida me abrace forte porque a Terra em que estou é de puro abandono. 


Phelipe Ribeiro Veiga
13 de Junho de 2012 - 14:58


Texto escrito numa espera de horas por atendimento em uma emergência de hospital sob insensibilidade médica.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Sobre os caminhos do amor.





O amor é um sonho, e cada fracasso é como o esforço de um parto de um filho já morto.
É como dar Vida à Morte.
É como não ter sido nada o que era tudo.
É como, depois de longa caminhada, descobrir que se caminhava longe para um lugar errado, é preciso voltar tudo, e redirecionar os pés que já estavam tão afoitos por o que se tomava como destino, é preciso admitir-se a perdição...
Mas quer saber? No fim, o que me conforta é, não importa o quão longe sigo num caminho errado, meus olhos não perdem nenhum detalhe, e por isso, vale sempre a paisagem!


Phelipe Ribeiro Veiga
08 de Junho de 2012 - 01:34

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Sobre o engano do amor.





"Quem nunca foi enganado, jamais amou..."
Afirmo isso sem temor algum de equívoco. Pois o que é amar senão extrair da Vida o que ela não tem pra dar? Achar no objeto de nosso amor tudo o que ele jamais será? Encontrar num olhar mais do que córneas e carne e fibras (O que de fato são)? 
O tolo ama, o sábio se entorpece, e se fazendo tolo, pode vir a amar. 
Quanto mais sábio é um homem, mais ardiloso deve ser seu coração, mais esperta deve ser sua imaginação, mais lógica deve ser sua mentira, caso contrário não há amor viável.
Eu temo por meu coração, pois quanto mais conheço da Vida, mais inconcebível ela me parece, como costumava pensá-la quando ainda a pensava. Hoje eu a vivo, e nada é como deveria. 
O amor não existe senão na ignorância de uma enganação, espontânea ou não. 
A tola ideia de necessidade, a ilusão de completude e entendimento, a sensação de casa no abraço, a sensação de apreço no afago, e então, como passos dos dedos sobre areia fina, isso tudo se desfaz, e o que fica na lembrança não é o que tivemos, nem o que pensamos ter tido, nem o que sonhavamos ter, trata-se de uma nova mentira. 
O amor renova-se de mentira em mentira...
Quem não se permite perder-se não ama jamais, quem não permite-se enganar-se, não ama jamais. 
E assim sendo, abençoo a minha ignorância, e seu preço de sangue... o qual pago enganosamente... satisfeito.


Phelipe Ribeiro Veiga
06 de Junho de 2012 - 22:03


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sobre as exigências da Poesia.






E quando a poesia bate na porta, insistentemente? 
Eu levanto da cama preguiçoso para atendê-la.
Abro a porta.
Lá está ela, tragando um cigarro de sonetos Vinícius, fazendo fumaças engraçadas como uma rima de Quintana. Ela veste um Tom, Nelsom Rodrigues, parece uma outra, Pessoa, fazendo charme. Ela está puta com a zona que trago no peito. Ela se desconforta, e se recusa a entrar... e não me deixa voltar a dormir, nem sequer fechar a porta. Ela não é de se ignorar.
É hora de arrumar a casa... 
Pois capacho não é lugar de rimar... 
É preciso ter conforto na alma pra poesia entrar...




"Boa noite e boa sorte..."


Phelipe Ribeiro Veiga
04 de Junho de 2012 - 22:21





"A gente todos os dias arruma os cabelos: por que não o coração?"
Provérbio chinês

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sobre um não haver.

Desalinhos! Feito uma gravata torta endireitou-me, a alma...
Feito um ofício muito custoso pego-me exaurido de exposições, explanações de mim. Fazer-me concebível dá-me muito trabalho e suas recompensas são a cada dia menos, menos surpreendentes, na verdade, decepcionantrs. Inicio essa parte do meu caminho sob esse sol me encolhendo em mim mesmo.
Pois meu corpo já se desgastou demais tentando expor essa alma minha infinita pro lado de dentro... E foram tantas as tentativas, e tantos os fracassos... Tantos...
Não há!
Meu corpo hoje é um bicho a satisfazer-se ao custo de minha pobre alma, amarrada, penhorada, nada. Meu coração nessas horas é uma palavra presa na garganta, um elogio não prestado, um segredo guardado, pra muitos (e às vezes pra mim) um desvalor.
Meu corpo segue amordaçando a minha alma, calando meu peito numa saciedade cara, e cada vez mais e mais vazia. Não há!
O meu cansaço transbordou,a resignação do meu peito me exauriu, a disposição do meu corpo jovem levou o que sobrou e a alma já é peso o suficiente... Sigo assim, por um tempo, ignorando às bússolas, vou pro sul... Sim, eu vou. Porque não há!

Phelipe Ribeiro Veiga
23 de maio de 2012—20:34


sábado, 19 de maio de 2012

Sobre meus 25 anos (Um texto de aniversário).



Vou-me para uma segunda metade de um quarto de um todo indivisível e invisível. E nesse compasso dissonante quanto mais aprendo, menos sei e contrariamente mais certezas tenho sobre a Vida. Sim, Vida com V maiúsculo, Divina, Boa, Sábia e Graciosa Vida. A Vida, a divindade invisível, pouco adorada, apesar de muito adornada. Aprendi isso até agora, e mais uma meia dúzia de coisas.
Vou-me feito um sol que começa a alcançar o meio dia. A perspectiva do mundo ainda é de sombras, e de certezas fugazes, mas apesar disso muito saborosas. E as pessoas? Fato é que trocamos os aviões de plástico, que erguíamos fazendo sons com a boca, imaginando vôos, e hoje fazemos o mesmo com nossos trabalhos, amores, futuros. É tudo luz e som, e um pouco de sabor e textura. As alturas ainda não me assustam, mas as multidões já me afastam um tanto, as indecisões já me geravam distanciamentos, hoje muito mais. Pois apesar de jovem sei bem do quão curta a Vida é.
Há ainda muita esperança, pois apesar de curta, a Vida é profunda, e nela cabe muita coisa. Passados podem ser resignificados, futuros podem ser replanejados, e os presentes hão de ser muito saboreados, temperados de lucidez e insanidades, como de costume.
Há muito amor, muita paixão, muita lágrima e solidão. Paciência e tolerância. Os sonhos são reeditados, e vou pouco a pouco sabendo mais e mais o que eu definitivamente não quero pra mim (o que é um avanço na direção do que quero). As horas a frente variam entre atrasos e adiantamentos de tudo. Há rimas e desacertos, e sei que ainda vou revisitar muitas vezes o que tenho entendido ser uma das coisas mais tristes da nossa existência, que é o descompasso de nossas individuais percepções de tudo (se ao menos existisse um micróbio que pensasse uma vírgula como eu, haveria menos solidão). Há muito o que revisitar. Farei muito turismo sobre ruas velhas, remodeladas, revistas. E também hei de ser estrangeiro em muito futuro impensado. Hoje é um dia de gratidão. E é isso que lanço para tudo que me rodeia nesse momento. Pois apesar de não ser exatamente quem eu gostaria de ser, sou muito mais do que jamais imaginei que pudesse me tornar. A Vida ainda me surpreende, e enquanto isso acontecer, sempre valerá "a pena".


Phelipe Ribeiro Veiga
19 de Maio de 2012 - 20:15


"Estou comprometido com a vida até o último dos meus dias, e me esforço para mudar as coisas, e, para isso, não tenho outro remédio que não seja fazer o que faço e dizer o que sou." Saramago





segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sobre flores artificiais.




Tudo em mim é visceral! 
O fato puro e simples é que minhas ondas não são artificiais, elas tem temperamento e temperatura.  Meu sangue não corre, aposta corrida, meu coração não bate, faz batucada, meus poros não suam, eles choram de comoção, eu não tenho febre, faço verão. A verdade é que até minhas mentiras são todas, cada uma à sua maneira... de verdade. Nada em mim é estático ou imutável. Cultivo em mim sempre a viabilidade de muitas instabilidades, que é pra me garantir vitalidade. Meus jardins são todos de verdade. Tudo neles nasce, cresce, floresce e perece... pra nascer de novo num novo arranjo com novas cores e odores. Para isso carrego em mim uma porção de Morte pra tudo que sinto e vivo. E é de tanta vida que um dia hei de afogar meu jardim. As pequenas pitadas de Morte que carrego hão de ser feito o sal que se acumula em alta pressão, e te encaminham pro "em vão" de todas as coisas que são. 
Todavia terei me valido de jamais ter tido em mim uma só flor que não fosse de verdade, não tendo concebido nenhuma dessas flores artificiais desses dias ruins que temos vivido, as quais não morrem nem desabrocham, são imutáreis, todavia não tem odor, só fazem ocupar espaço, empoeirar-se e desbotar-se. Terei tido um lindo jardim...


Phelipe Ribeiro Veiga
14 de Maio de 2012 - 20:58

Sobre amar os covardes.

É difícil amar os covardes.  E não é que não tenham seu apelo. Suas famílias funcionais, suas declarações contundentes, suas carreiras estáv...